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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Quando me tornei invisível


 
       
        (Procuramos o Autor)
       
        Já não sei em que data estamos.
        Nesta Casa não há almanaques e em minha memória tudo está revolto.
        As coisas antigas foram desaparecendo.
        E eu também fui apagando sem que ninguém se desse conta.
       
        Quando a família cresceu, me trocaram de quarto.
        Depois, me passaram a outro menor ainda acompanhada de minhas netas.
 Agora ocupo o esconderijo, no pátio de trás.
       
        Prometeram-me trocar o vidro quebrado da janela, mas se esqueceram.
        E nas noites, por Ali se sopra um ventinho gelado que aumenta minhas dores reumáticos.
       
        Um dia à tarde me dei conta que minha voz desapareceu.
        Quando falo, meus filhos e meus netos não me respondem.
        Conversam sem olhar para mim, como se eu não estivesse com eles.
       
        Às vezes, digo algo, acreditando que apreciarão meus conselhos.
 Mas não me olham, não me respondem.
 Então, me retiro para o meu canto antes de terminar a caneca de café.
        Se o faço é para que compreendam que estou enojada,
        Para que venham procurar-me e me peçam perdão…
        Mas ninguém vem.
       
        No dia seguinte lhes disse:
       
        - Quando eu morrer, então sim vão me estranhar.
       
        E meu neto perguntou:
       
        - Você está viva, vovó? (RISADAS)
       
        Estive três dias chorando em meu quarto,
        até que numa certa manhã um dos meninos entrou a jogar umas rodas velhas…
       
 Nem o 'bom-dia' me deu.
 Foi então quando me convenci de que sou invisível.
       
        Uma vez, OS meninos vieram dizer-me que no dia seguinte iríamos todos ao campo. Fiquei muito feliz. Fazia tanto tempo que não saía!
       
 Fui a primeira a levantar-me.
        Quis arrumar as coisas com calma.
 Nós, os velhos, tardamos muito, assim tomei meu tempo para não atrasá-los.
        Em pouco tempo, todos entravam e saíam da casa correndo, jogando bolsas e brinquedos no carro.
       
        Eu já estava pronta e muito alegre. Parei na porta e fiquei esperando.
       
        Quando se foram, compreendi que eu não estava convidada.
        Talvez porque não cabia no carro.
 Senti como meu coração se encolhia, o queixo me tremia como alguém que tinha vontade de chorar.
       
        Eu os entendo.
        São jovens.
        Riem, sonham, se abraçam,
        Se beijam.
       
        E eu...
        Antes beijava os meninos, me agradava tê-los nos braços, como se fossem meus.
        E até cantava canções de berço que havia esquecido.
 Mas um dia…
       
        Minha neta acabara de ter um bebê.
        Me disse que não era bom que os velhos beijassem OS meninos por questões de saúde.
        Desde então não me aproximei mais deles.
        Tenho tanto medo de contagiá-Los!
       
        Eu bendigo a todos e os perdôo, porque... Que culpa têm os pobres de que eu tenha me tornado invisível!
       
        Triste envelhecer numa família que pensa que eles nunca ficarão...
       
        Cuide bem dos seus idosos, pois eles não são invisíveis e você, um dia, será um deles.