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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

As crônicas da volta por cima


Às vezes a vida nos lança uma bola nas costas, nos dá um abacaxi para descascar, nos obriga a andar em círculos. Mas saber lidar com o fracasso pode ser o primeiro passo rumo ao sucesso.

Quando a escritora J. K. Rowling falou em Harvard à turma que se formava em junho de 2008, ela não tratou de sucessos. Em vez disso, falou de fracassos. Contou a história de uma moça que abandonou o sonho de escrever romances para estudar algo mais prático. Ainda assim, acabou como mãe solteira desempregada, “o mais pobre que é possível ser na Grã-Bretanha moderna sem virar sem-teto”. Mas, durante o pior período, percebeu que ainda tinha uma filha maravilhosa, uma velha máquina de escrever e uma ideia que se tornaria a base para reconstruir sua vida. Você já ouviu falar em Harry Potter, não?
“Talvez vocês nunca fracassem como fracassei”, disse Rowling àquela plateia privilegiada. “Mas é impossível viver sem fracassar em algo, a menos que se viva com tanta cautela a ponto de nem sequer viver de verdade e, aí, o fracasso é óbvio. Você nunca se conhecerá de verdade, nem saberá a força dos relacionamentos até que sejam postos à prova pela adversidade. Esse conhecimento é um verdadeiro dom, pois é conquistado com a dor, e para mim vale mais do que os títulos que já recebi.”
Nos dias de hoje, muitas pessoas têm experimentado o fracasso pela primeira vez. Seja pela dificuldade de comprar a casa própria, pelo desemprego ou pelo sumiço das economias duramente acumuladas, de repente a geração que tinha tudo não tem mais nada. Mas, na amargura que acompanha a adversidade, há lições que vale a pena saborear; e, se olharmos com atenção, há também doces oportunidades.
A seguir, você verá como o cérebro reage ao fracasso e como alguns truques simples podem reprogramá-lo para o sucesso. Também encontrará conselhos de um empresário bem-sucedido, que afirma que, na verdade, épocas como esta são as melhores para pôr os sonhos em prática. O mais importante: você vai conhecer pessoas comuns que passaram por situações difíceis. Algumas fizeram bobagens; outras foram “apunhaladas pelas costas”. Mas mesmo que as histórias sejam diferentes, o resultado é sempre o mesmo: todas deram a volta por cima.
E para fazer isso, como diria a própria Rowling, nem é preciso ser bruxo.
“Não consegui ser a esposa perfeita, na casa perfeita, mas superei dificuldades e segui em frente.” Randi Ketchum, 36 anos, Huron, Ohio
Foi uma das ocasiões mais felizes da minha vida: tinha 29 anos e acabava de me formar, apesar de ter dois empregos, ser esposa e mãe. Meus pais e meu filho de 5 anos estavam na plateia quando subi ao palco da Universidade Ashland para receber o diploma. Estava empolgadíssima e orgulhosa por iniciar uma nova carreira de professora e contribuir com o bem-estar da minha família.
Mas, quando voltei para casa, havia um bilhete do meu marido, escrito nas costas de um envelope. Dizia, basicamente, que ele fora buscar as roupas e que não voltaria. Vínhamos enfrentando problemas, mas o tom definitivo do bilhete foi um choque. Ele limpara a conta bancária. Estávamos endividadíssimos. Eu deixara os empregos anteriores para procurar trabalho como professora. Além disso, estava grávida de oito meses.
A maioria das moças tem uma imagem idealizada do casamento. Mas ninguém senta ao nosso lado para dizer que a realidade não é assim, que às vezes a vida é simplesmente horrível. Para mim, tudo desmoronou naquela noite. Estava envergonhada, assustada e zangada, achando que fracassara.
Mas tinha o meu filho e estava prestes a trazer ao mundo uma nova vida, e, apesar da minha tristeza, tinha de seguir em frente. Na manhã seguinte, acordei (em termos literais e figurativos), pus os pés no chão, preparei o café da manhã e, basicamente, fiz tudo o que sempre fazia. Usei a rotina para me manter ocupada. Depois de passar seis anos nas forças armadas, acho que posso dizer que me senti de volta à instrução, como todos os bons soldados em situações difíceis. Um pequeno passo depois do outro, foi assim que me recuperei.
E nos sete anos que se passaram desde então, continuei avançando. Consegui emprego como professora do maternal, fiz mestrado em Educação e vi meus filhos chegarem aos 12 e aos 7 anos. É claro que preferia que nunca tivessem de passar por aquilo, mas quando olho para trás fico contente pelo que aconteceu naquela época. A dificuldade me ajudou a me encontrar, a encontrar a minha voz muito mais cedo. Ela me ajudou a ficar independente, confiante e forte, coisas que espero ter ensinado aos meus filhos.
“Fracassei em tudo quando era jovem, mas acabei de vender minha empresa por 75 milhões de dólares...” Bob Williamson, 62, sul da Flórida
Em 1970, quando eu tinha 24 anos, fui de carona para Atlanta, nos Estados Unidos, e, ironicamente, acabei na Luckie Street, a rua da Sorte. Na época, eu não tinha sorte alguma. Era viciado em drogas e procurado pela polícia. Tudo o que possuía cabia dentro de uma fronha. Decidira que ia me endireitar, senão me suicidaria. Vendi meio litro de sangue por 7 dólares e arranjei um quarto para passar a noite na Associação Cristã de Moços, naquela rua. No dia seguinte, consegui um emprego limpando tijolos, depois me mudei para uma pensão e, aos poucos, comecei meu caminho de volta.
Mas a sorte ainda não estava do meu lado. Bati de frente ao dirigir um carro emprestado e fiquei tão machucado que passei três meses no hospital. Lá, decidi ler a Bíblia. Comecei como forma de espantar o tédio, e achei mesmo que não ia gostar. Mas li o Novo Testamento, depois o Antigo, depois o Novo outra vez, li cada palavra. Naquele momento, comecei a sentir um empurrão leve e constante de encorajamento. Apesar de não servir de exemplo para ninguém, me senti perdoado e amado.
Pouco depois de sair do hospital, conheci uma moça maravilhosa, com quem me casei seis meses depois. Ela era a perfeita moça de família, ao contrário de mim, como podem imaginar, mas estamos casados há 38 anos e temos uma família grande e unida. Consegui me tornar uma pessoa importante na comunidade, um empresário de sucesso. Na verdade, acabei de vender minha empresa de software, o nono negócio que abri, por 75 milhões de dólares.
Não acredito em coincidência nem em sorte. Acredito em Deus. E a lição que aprendi com tudo isso foi que Deus parece mostrar sua força e seu poder por meio da fraqueza. Acho que Ele escolhe os que estão na pior situação para mostrar o que é possível. Mas nem sempre dá para marcar o momento em que isso acontece. Ele não nos abençoa simplesmente e nos en­che de milhões. Em vez disso, Deus nos mostra o caminho e oferece as oportunidades. Cabe a nós determinar as metas, imaginar a estratégia e, o mais importante, pôr as mãos à obra. É assim que se chega à “rua da sorte”.
“Não consegui salvar uma vida, mas não cometi o mesmo erro duas vezes...” Mary Wilson, 65, Montecatini, Itália
Quando eu preparava o jantar no meu apartamento em Norfolk, no Estado americano da Virgínia, em 1996, ouvi um barulho de vidro quebrado e uma mulher gritando no apartamento ao lado. Na mesma hora, soube o que estava acontecendo. A moça estava apanhando do marido – e, dessa vez, não hesitei antes de agir.
Quinze anos antes, quando morava numa casa perto de Boston, tive como inquilinos, no andar de cima, outro casal jovem. Às vezes eles brigavam e faziam barulho, mas sempre paravam quando eu telefonava para reclamar. Mas certa manhã, bem cedo, ouvi gritos. Telefonei, como costumava fazer, mas, como ninguém atendeu, voltei a dormir. A próxima coisa de que me lembro é alguém esmurrando a porta. Quando abri, vi o homem que morava no andar de cima. “Matei Sandy”, disse ele. Estava coberto de sangue e, como descobri mais tarde, usara facas e garrafas quebradas para feri-la até a morte. Depois, tentou se matar. Chamei a polícia e subi. O que vi foi tão terrível que não pude mais morar naquele prédio. Na mesma semana, vendi a casa com prejuízo.
Depois, fiquei traumatizada. Nunca procurei tratamento psiquiátrico, mas talvez devesse ter procurado. Não conseguia superar o fato de que tive uma intuição sobre aquele rapaz, mas não lhe dei atenção. Sabia que não era racional, mas o sentimento de culpa nunca me abandonou. Lá no fundo, sempre senti que poderia ter feito alguma coisa.
E foi por isso que, ao ouvir gritos outra vez em 1996, como um cruel déjà-vu, corri na mesma hora para o telefone, chamei a polícia e saí porta afora para ajudar. Estava zangada, lívida, talvez um pouco descontrolada. A porta estava trancada por dentro, mas pelas vidraças quebradas consegui ver que ele a arrastava para o banheiro. Estava coberto de sangue, por rastejar pelos cacos de vidro, e gritava: “Vou afogar você!” Comecei a socar a porta e gritar: “Deixe a moça em paz! Estou vendo o que você vai fazer!” Ele deve ter levado um susto, porque tropeçou, e ela conseguiu se soltar, e ele saiu correndo pela porta dos fundos.
A moça estava machucada, mas sem ferimentos graves. Como na época eu estava na Marinha, levei-a para a base, onde ficaria em segurança, e depois a ajudei durante todo o processo na justiça, até ele ser condenado.
Olhando para trás, a história toda é tão estranha que quase não consigo acreditar. É como se tivesse de acontecer. Não me sinto mais culpada, porque o círculo se fechou. Mas às vezes ainda penso que até nas piores situações existem oportunidades de aprender, de melhorar e, em última análise, de reagir de outra maneira caso haja uma segunda chance.
“Não tomei cuidado e perdi uma vista, mas isso me ajudou a ver tudo mais claro...” Alex Gadd, 52, Pikeville, Tenessee
Estava carregando a camionete para ir ao mercado de usados quando o gancho de uma das cordas elásticas de bungee-jump se torceu e atingiu o meu olho esquerdo. A dor foi como se uma espada em brasa atravessasse minha cabeça. Caí de quatro, e quando vi algo que parecia gelatina e sangue pingar no chão, soube que era grave.
Levaram-me para um centro oftalmológico especial. Os médicos operaram várias vezes, mas não conseguiram salvar meu olho. Quando me deram a notícia, quis morrer. Eu era divorciado e imaginei que mulher nenhuma ia querer se relacionar comigo. Tudo o que restava do meu olho era o branco, e meu rosto estava inchado e machucado.
Mesmo depois que passei a usar uma prótese, não conseguia me livrar da depressão. Para piorar, perdi o emprego de motorista do Departamento de Serviços Infantis do Tennessee, porque ficaram com medo de que eu não fosse mais capaz de dirigir. Mas, certa manhã, acordei com a TV ligada e lá estava uma moça de 16 anos, que sofrera queimaduras graves no rosto, nas mãos e nas pernas, e estava reaprendendo a andar. Tinha um sorriso e parecia olhar diretamente para mim quando disse: “A gente não deve desistir nunca.” Naquele momento, pensei: foi só um olho. Posso superar. E superei.
Já faz 12 anos desde o acidente e agora faço tudo o que costumava fazer. As mulheres ainda gostam de mim e ninguém percebe que uso prótese de olho, porque a nova é excelente. E embora não tenha recuperado o antigo emprego, consegui tirar uma nova carteira de motorista e nunca arranhei um para-choque sequer, com mais de um milhão de quilômetros rodados.
Certa vez, li a história de um homem que se sentia mal porque não tinha sapatos, até que encontrou um homem que não tinha pés. Por mais devastador que seja o nosso problema, sempre há alguém em situação pior.
“Não consegui realizar o meu sonho, mas desde então realizei outras coisas...” Daryl Nelson, 36, Brooklyn, Nova York
Um convite para gravar um disco: aconteceu comigo e com o meu melhor amigo, quando éramos calouros na Universidade do Estado da Virgínia e tocávamos num grupo de hip-hop chamado BizzrXtreemz. Soubemos que Clive Davis, fundador e presidente da Arista Records, aprovara pessoalmente o contrato. No verão de 1994, largamos a faculdade e fomos para Nova York. Tínhamos 21 anos e estávamos no caminho certo.
Para nos concentrarmos na música, contratamos um agente e lhe demos 5 mil dólares de adiantamento. Mas, certo dia, quando chegamos ao estúdio, disseram que não podíamos mais gravar porque eles não tinham recebido. O nosso agente era um picareta. Sem dinheiro, tentamos gravar algumas músicas, mas a qualidade ficou horrível. O chefe do departamento musical da Arista detestou e perdemos o contrato.
Seis meses depois, tudo acabara.
Lembro-me de que fiquei sentado meio tonto, debaixo de uma ponte, com bêbados e sem-teto. Nada me preparara para o fracasso. Eu achava que era predestinado. É claro que não desistimos logo. Fizemos outros demos e os distribuímos, mas dali a pouco tivemos de arranjar emprego para sobreviver. A música nunca nos deixou; só virou uma parte menor da nossa vida.
Hoje sou coordenador de um sindicato, o último da longa série de empregos no ramo de atendimento ao cliente que tive nesses 15 anos, desde aquele verão. O meu parceiro e eu rompemos faz alguns anos e lancei algumas músicas solo, com o nome de River Nelson, por uma pequena gravadora de Londres. Mas não persigo mais o mesmo sonho. Chega uma hora em que temos de reavaliar nossas aspirações e descartar o que é ambicioso demais ou o que não tem mais nada a ver com a realidade. No entanto, ao mesmo tempo, guardamos as coisas mais valiosas, que para mim foram a flexibilidade, a perseverança e a capacidade de concentração que adquiri. Quando vemos as coisas assim, descobrimos que o pote de ouro, na verdade, é a busca pelo pote de ouro.
Ainda faço músicas, mas hoje só por prazer. Redirecionei toda a minha energia para outras coisas criativas. E esse foi um novo começo. Ainda mantenho parte do sonho original, mas agora recebi também todas essas outras bênçãos.
Por Joe Kita para http://www.selecoes.com.br