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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A ESCOLHA DE SOPHIA


A Escolha de Sofia

 A escolha de Sophia é um filme complexo. Mistura o sofrimento da guerra, do campo de concentração, com simples prazeres da vida, como tomar vinho, passear no parque com os amigos, e problemas psicológicos graves. Fala de muita coisa, mas o que fica para nós é a maldita escolha. A possibilidade de escolha é a grande questão da nossa existência humana. Afinal, se somos capazes de escolher, temos que arcar com nossas responsabilidades. Mesmo a escolha de se abster é uma escolha e pode nos carregar de culpa, por não ter feito nada. A escolha infringida a Sofia foi tão forte que a expressão se transformou em símbolo de escolha impossível. E o mais notável é que só lhe deram míseros cinquenta e cinco segundos. Todo o filme é notável, a interpretação de Meryl Streep é fenomenal em cada momento, seja sorrindo, dançando, chorando na beira da escada, apanhando do namorado, mentindo, confessando, aprendendo a falar inglês e tudo mais que a vemos fazer. Mas, nada é tão forte e significativo quanto o momento da escolha. E esta é a grande cena que fica em nossa memória.

ATENÇÃO, SE VOCÊ NÃO VIU O FILME E QUER SE SURPREENDER, NÃO LEIA O RESTO.

Somos avisados no título de que Sofia vai fazer uma escolha, mas não nos explicam qual é essa escolha. Durante duas horas e quinze minutos somos induzidos a entender que ela deverá escolher entre seu namorado Nathan e seu vizinho Stingo. Só no apagar das luzes vem a revelação. Sua escolha é muito mais profunda do que um simples romance. Quem deve viver? Seu filho de dez anos ou sua filha de oito? Quem você irá mandar para câmara de gás e quem terá uma chance naquele campo insólito? Qual a mãe conseguiria responder? Mas, se não respondesse, Sofia veria os dois serem exterminados. Não seria justo salvar ao menos um? Nem muito tempo há para pensar. Do instante em que o nazista fala "você pode ficar com uma" até o momento em que ele diz "levem as duas crianças", se passam exatos cinquenta e cinco segundos. A decisão que irá torturar a mente de Sofia para o resto de sua vida, não leva um minuto. E ela grita, quase inconsolável, "leve o meu bebê, leve a minha garotinha". A tensão psicológica é imensa, não há como não se emocionar.

Engraçado que já estamos quase no final do filme, já sabemos que a menina foi para a caldeira e que o menino poderia estar vivo, sendo criado por uma família alemã. A revelação ali era apenas que foi Sofia a responsável pelos dois destinos. Então, sem a expectativa da resposta, podemos nos concentrar no sofrimento daquela mulher. Na expressão que Meryl Streep consegue construir em cada gesto e na frieza de seu opositor.

Percebam o enquadramento escolhido por Alan J. Pakula. Ele coloca o nazista de baixo para cima, na penumbra e Sofia de cima para baixo com a luz estourada em sua face. Ele, no conforto de sua superioridade e escondido pela sombra. Ela, submissa e totalmente exposta. O plano é fechado em ambos os casos. A tensão está no olhar, nos pequenos gestos. Ele chega falando de sua beleza e do seu desejo. Brinca com seu desespero ao falar as palavras de Jesus. Tudo dá ainda mais raiva daquele homem sem sentimentos.

A Escolha de Sofia

Outro detalhe que dá força à cena é o fato de a menina estar no colo da mãe e o menino ao seu lado, agarrado as suas pernas. Então, vemos a garotinha que irá morrer (já sabemos disso, lembrem) e suas expressões de medo. A força dramática disso é ainda maior. O menino só é mostrado no momento em que o nazista manda levar os dois. Aí ele chora agarrado à mãe e ela grita para levarem a menina que sai chorando muito. A cena dela se afastando se contrasta com o rosto de Meryl Streep no ápice da dor, nenhum som ela consegue soltar. 
Acesse link abaixo e veja o momento dessa terrível escolha...


http://www.youtube.com/watch?v=-d9RhMDVWOY&feature=related