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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um apelo: Faça-me isto em vida!



EM VIDA, IRMÃO, EM VIDA


Qual de nós não deixou partir um ente querido, a mãe, o pai, a esposa, um irmão um amigo, sem lhe ter dito quanto o amava, sem lhe proporcionar o carinho, a palavra de afecto que adoçaria a sua partida? Qual de nós não tinha coisas para perguntar que nunca perguntou e se lamenta depois, amargamente, por todas as perguntas que não fez e às quais jamais vai poder obter as respostas de que precisava, A mim (e como o lamento!) já aconteceu e estou certo que o mesmo se passa com muitas, muitas outras pessoas.

É Assim, meus amigos. O ser humano tem uma capacidade infinita de amar e também de odiar, mas, enquanto as expressões de ódio se lhe soltam com uma facilidade por vezes inaudita e feroz, tem uma dificuldade tremenda em exprimir, em palavras, os sentimentos de amor de que, porventura, se encontre possuido.

Ora, se isto é assim em relação ao ser humano em geral, tenho para mim que nós, portugueses, somos particularmente canhestros, inábeis, timoratos, na forma de exprimirmos os nossos afectos, de nos abrirmos aos outros, numa palavra. Repare-se como a palavra amor é tão parcamente utililizada no nosso linguajar quotidiano.

Podemos falar desse e de outros grandes sentimentos mas quase sempre com letra maiúscula, como coisas abstractas, sempre precedidas de artigo (o Amor, a Amizade, a Bondade, a Justiça) mas sermos amorosos, amigos, bons e justos, aí a coisa fia mais fina. No que concerne ao amor, podemos até senti-lo, mas exprimi-lo em palavras constitui um embaraço tremendo para a maioria de nós.

Senão, repare-se: tirando o período exaltante do enamoramento, da paixão, da perseguição e da caça, quantos de nós, no dia a dia da nossa vida familiar, se dirigem à companheira (ou companheiro) com expressões como “amo-te”, “meu amor”, “meu bem”, ou mesmo se dirige à mãe com as ternas palavras “amo-te, minha mãe”? Muito poucos, tenho a certeza. É que a palavra amor tem uma densidade, um peso, que o nosso temperamento de portugueses sisudos tem dificuldade de soltar.

Veja-se a facilidade com que os brasileiros dizem “eu amo você, meu amor”, “adoro você, meu irmão”, “adoro vocês, meus amigos". Eles dizem isso a toda a hora, nas calmas, com a maior naturalidade. Do mesmo modo, os povos de língua inglesa, para não falar de outros, empregam no respectivo idioma expressões de amor com uma ligeireza e simplicidade que nós, de todo, não somos ou não queremos ser capazes. “I love you”, “yes, my love”, “sweet love”, e por aí fora.

Nós, só em circunstâncias muito especiais nos permitimos o uso, mas muito moderado, de tais expressões que consideramos, talvez, pouco adequadas ao nosso caracter. E isto não é apenas apanágio do sexo masculino, não senhor. Embora de uma forma talvez mais atenuada, as mulheres sofrem de igual incapacidade em exprimir este tipo de sentimentos.

E depois, depois, quando já não há remédio, vem uma espécie de remorso, uma inexprimível mágoa, por tudo o que se não disse, pelos gestos que não se fizeram, pelos carinhos que se omitiram, pelas perguntas que não se formularam – por falta de geito, por timidez, por preguiça, por orgulho mal entendido, quantas vezes! Só que então é demasiado tarde e não há expiação que possa remediar as oportunidades perdidas.

***
Vem isto a propósito de um lindíssimo poema que nos deixou o nosso Amigo padre José R...

O Padre Zé era amigo da família de minha mulher – da minha família, portanto, que é assim que ambos o entendemos. Filho de camponeses, nasceu na aldeia desses nossos familiares, que é também a de minha mulher, e ali foi criado, porta com porta, e com eles cresceu e se fez homem. E ingressou no seminário, e de lá saiu padre, e veio para Lisboa, onde exerceu os cargos de prior e de professor, na sua condição de clérigo e pedagogo.

Nunca deixou de se relacionar com os vizinhos, alguns dos quais cresceram com ele, bem como com os respectivos filhos, netos e restantes membros do enorme clã que eles constituem. Ele próprio passou a ser considerado como membro da família, especialmente após o falecimento de seus pais. Não havia festa familiar em que ele não participasse, quer como conviva, quer no exercício do seu munus sacerdotal.

Estava agora retirado de todas suas actividades, que a idade não perdoa, e vivia numa moradia que ele próprio mandara construir numa vertente da serra, bem próximo da natureza, da casa onde nascera e das pessoas que estimava.

Várias vezes estive com ele em festas e reuniões familiares, mas nunca tivemos oportunidades de entabular qualquer conversa para além dos cumprimentos e de algumas palavras de circunstância. Pois aqui há uns quatro ou cinco anos (o tempo voa e a gente perde-lhe a conta) numa festa de aniversário de casamento de uns dos nossos primos, aconteceu ficarmos sentados frente a frente. Tivemos, então, ocasião de conversarmos longamente e de perceber que era um homem culto, esclarecido, inteligente e afável. Devo também ter-lhe causado boa impressão, pois me manifestou vivo desejo de que voltássemos a conversar e que sempre que eu fosse à aldeia o procurasse.

No dia sguinte, logo pela manhã, iria a Lisboa, para fazer exames de rotina, dizia, e depois combinaríamos a maneira de voltarmos a encontrar-nos. Não houve nenhum depois. Com quantos dolorosos depois, que nunca aconteceram me vi confrontado ao longo da minha vida! ! E não só a morte, não, é a culpada destes "depois" que nunca se cumpriram. As teias que a vida tece se encarregam também, e quase sempre, de punir a nossa desatenção a sinais que tínhamos o dever de não ter ignorado.

Poucos dia passados, o padre Zé deixou-nos para sempre.

Entre as páginas da sua Bíblia, muito dobradinha, foi encontrada uma folha de papel com o seguinte poema que aqui deponho em sua homenagem:

* * *

Em Vida, Irmão, em Vida

Se queres feliz fazer
Alguém a quem queiras muito...
Diz-lhe, hoje. o teu querer
Fá-lo em Vida, Irmão, em Vida... .

Se desejas dar uma flor,
Não esperes que ela murche
Manda-lha, hoje com amor...
Fá-lo em Vida, irmão, em vida..,

Se desejas dizer" GOSTO DE TI"
Á gente da tua casa, que te é querida,
Ao amigo perto ou longe,
Fá-lo em Vida, Irmão, em Vida...

Não esperes pela sepultura
Das pessoas para as amar
E dar-lhes e sentir a tua ternura
Fá-lo em Vida, Irmão, em vida...

Ser venturoso mereces
Se aprenderes a fazer felizes
A todos os que conheces
Em Vida, Irmão, em vida...

Nunca visites panteões
Nem enchas tumbas de flores
Enche de amor corações
Em Vida, Irmão , em Vida....

(Encontrado na bíblia do Padre Zé)
14/04/2001
* * *
Desconfio bem que, português como nós, também ele nunca tivesse tido a coragem de mostrar aquele poema a alguém a quem amasse.
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P.S.
O Padre Zé, soube-o, mais tarde, levou tão a sério a ideia de que é em vida que o amor e a amizade devem ser demonstrados, que deixou expressa a vontade de não querer flores no seu funeral, nem no cemitério, nem nada que lembrasse o seu nome. Assim quem hoje entra no humilde cemitário da terra onde viveu e morreu, encontra, logo à entrada, uma lage de mármore, negra, sem qualquer nome ou referência, que obrigatoriamente tem de pisar. É sob ess lage que repousam os restos mortais do padre Zé.
Nota: Pode ouvir este poema na voz inconfundível de Luís Gaspar, em
Lugar aos outros nº 10