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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Não morra lentamente...




MORRE LENTAMENTE
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade. 
Pablo Neruda
PABLO NERUDA (NOME DE BATISMO: NEFTALÍ RICARDO REYES BASOALTO) (PARRAL, 12 DE JULHO DE 1904 — SANTIAGO, 23 DE SETEMBRO DE 1973) FOI UM POETA CHILENO PREMIADO COM O NOBEL DE LITERATURA DE 1971, UM DOS MAIS IMPORTANTES POETAS DA LÍNGUA CASTELHANA DO SÉCULO XX E CÔNSUL DO CHILE NA ESPANHA (1934-1938) E NO MÉXICO.


Agora, sobre morrer lentamente veja o que Martha Medeiros (escritora)  escreveu... complementando  Neruda, muito profundo também!
Conheço inúmeras pessoas que morrem lentamente. Penso até que para a morte não lhes falta nada, somente o velório e o enterro. São pessoas que reclamam constantemente de tudo que lhes acontece durante a vida. Diga-se de passagem, que a vida, para essas pessoas, é um pesado fardo que lhes foi concedido sem que se pudesse perguntar a elas se realmente desejavam isso...
São pessoas que não se arriscam a tomar um banho de chuva de vez em quando. Que não ousam sair de casa sem um guarda-chuva ou uma capa a protegê-los. Não querem se arriscar e perceber que aqueles pingos gelados, caindo aos milhares dos céus, também são uma grande dádiva que nos é dada por Deus.
Mudanças lhes causam arrepios. Não acreditam que irão se arrepender de não ter tentado mudar, mesmo as pequenas coisas de suas vidas. Envelheceram muito rapidamente e não ousam colocar o nariz para fora da porta de suas casas. Escondem-se em suas modernas cavernas imaginando-se protegidos do mundo. Esquecem-se que é no contato com o mundo que realmente crescemos, aprendemos, nos machucamos, nos maravilhamos, choramos ou damos risadas sonoras e gostosas...
Falta-lhes, como nos diz o sábio Neruda, a paixão. O fogo não lhes arde no coração e não os impulsiona a fazer as loucuras que todos temos que fazer algum dia em nossas vidas. São pessoas que nunca deixarão para trás seus cotidianos para andar na praia, sentir a brisa marinha, deliciar-se com a água a lhes molhar os pés...
O mar, para pessoas assim, é uma beleza somente a partir da tela da TV. A mesma televisão que os escraviza e que muitos pensam lhes fazer livres. Não viajam para conhecer novos lugares e pessoas, sentir sabores e odores diferenciados, entregar-se a realidades e contextos completamente diversos daquilo que possuem.
Não viajam nem mesmo através das letras e da imaginação de fantásticos escritores, cronistas e poetas, como o próprio Pablo Neruda...
Morrem lentamente (ou já estão literalmente mortos) porque nem ao menos parecem se amar. Quem se ama se entrega para a vida e para o mundo de braços abertos. Quer conhecer, conquistar, bradar alto dos mais altos picos de montanhas, nadar entre os peixes, brincar sempre como criança, beijar com paixão o amor de sua vida como se fosse a primeira vez em cada nova oportunidade,...
Não se restrinja a somente respirar. Abra os olhos. Encha os pulmões. Sinta o calor emitido pelo sol. Explore o mundo e deixe que o mesmo o seduza e o conquiste. Viva cada minuto como se realmente fosse único...